"15 histórias da vida" - Okan Frei em conversa

Ele combina pop urbano com R'n'B contemporâneo e ainda por cima tem algo para contar. Sai agora o álbum de estreia "U1" do músico berlinense Okan Frei.
Okan Frei. Em conversa.

O Okan Frei já tinha chamado a atenção com a sua música há alguns anos - embora mais nos bastidores. Escreveu canções para os Overground, a banda de sucesso do "Popstars" no início dos anos 2000, e pôs a sua musicalidade a trabalhar também com o Xavier Naidoo, o Sido e o Olson. Nos últimos anos, porém, o cantor foi sendo puxado cada vez mais para a ribalta e assim consolidou a sua ideia de um álbum próprio. O título: "U1" (26.10.18).
"A U1 é provavelmente a linha de metro mais conhecida da Alemanha e representa a minha cidade natal, Berlim, e com isso a crónica da minha vida. Mas ao mesmo tempo também a crónica dos meus pais. Porque eles conheceram-se há anos na U1, a caminho do trabalho."
Falámos com o berlinense sobre a criação das suas canções, a sua família, as ruas duras da capital e sobre aquilo que mais gosta de levar nos pés enquanto o faz.

"'U1'" é o álbum que eu sempre quis escrever."
Estás ativo na cena musical há muitos anos e, ainda assim, "U1" acabou por ser o teu álbum de estreia. O que é que demorou tanto tempo?
Já há bastante tempo que tenho um álbum, na verdade vários álbuns, prontos, mas por razões legais não podia publicar nenhum deles. Estive assinado por uma editora indie e mais tarde pela major Universal. Ambas as coisas acabaram infelizmente em desastre e eu fiquei com uma data de músicas prontas, mas sem nenhum disco no mercado. Depois veio de alguma forma um trabalho de escrita atrás do outro, entre outros o "Popstars" com os Overground, mas depois também artistas como o Sido e o Xavier Naidoo. Foi nisso que me concentrei primeiro, mas sempre com a ideia na cabeça de que também queria criar algo próprio. Entretanto tinha algumas músicas prontas e pude ir com elas para a estrada. Nos últimos anos andei muito em tour com o Adel Tawil, o Olson e a Balbina. Isso deu-me mais força para trabalhar com mais afinco na minha própria estreia. "U1" é agora efetivamente o álbum que eu sempre quis escrever, a estreia que eu próprio sempre desejei muito. Tenho muito orgulho nele.
"Optimum" foi o teu segundo single e chegou mesmo a tempo do fim do verão.
A música nasceu no estúdio do Stickle, juntamente com o Olson. Era apenas a segunda vez que nos sentávamos juntos para trabalhar no meu disco. Antigamente escrevia sempre sozinho. Mas com os rapazes tive um bom pressentimento. Sobretudo com o Oli consegui trocar ideias incrivelmente bem. Ele percebia o que eu queria, fosse no sentido musical, fosse em decisões de vida. Através das tours em conjunto e de partilharmos um palco tornámo-nos amigos. Por isso foi-me fácil abrir-me. Queria muito fazer música dançável, sem me tornar piroso ou banal, ou seja, indiferente. "Optimum" é uma história verdadeira, como todas as músicas do meu álbum. Sem exceções. Só a verdade e nada mais do que a verdade. Okan Frei puro.
Através da música "Wer wir sind", "U1" aborda, entre outras coisas, o crescer como alemão com background migrante. Um tema muito atual.
Sinceramente, não tentei de todo pensar em política ao fazê-lo. Não quero fazer política com a minha música. Mas claro que os acontecimentos atuais não nos deixam indiferentes. A intenção por trás de "Wer wir sind" era apenas contar a minha história. A minha história e a história dos meus pais e da minha irmã. Há tantos alemães com background migrante lá fora que fazem música com muito sucesso, mas dá a sensação de que servem todos o mesmo esquema. Eu tento também iluminar o outro lado. Aqueles a que chamo os "turco-alemães moderados", de que há tantos, mas que talvez simplesmente não sejam tão barulhentos, não tenham de andar a atirar símbolos de estatuto para todo o lado e queiram apenas viver em paz. Os pais, ou até os avós, que vieram para cá há décadas porque procuravam um novo futuro, na esperança de oferecer às suas famílias uma vida melhor do que aquela que eles próprios tiveram. É a eles e à minha família tão forte que quero dedicar este álbum.
O que é que, para além disso, se pode ainda esperar do álbum?
15 histórias da vida real. (ri-se) Não, a sério. "U1" oferece música honesta sem grandes firulas. Grandes sentimentos, mas também os mais pequenos detalhes. É mesmo um álbum que custou muito tempo e muito esforço. Não tive pressão nenhuma, a não ser aquela que eu próprio me impus. Não pensei muito. Confiei, ouvi e, aquilo que mais me custa: tive muita paciência. No fim posso dizer de consciência tranquila que a minha equipa e eu conseguimos mesmo fazer uma obra completa. Hoje em dia tudo é tão rápido. Eu queria criar algo para a eternidade, algo intemporal.

"Tenho de me sentir bem."
No teu álbum revelas um gosto musical muito apurado. Que 5 artistas fazem parte, para ti, dos maiores de sempre?
Essa é fácil: Sade. Sezen Aksu. Michael Jackson. Kanye West. Frank Ocean. Mas na verdade também Jay-Z, Tupac, Sting, Amy Winehouse... Quantos é que já vão? (Sorri)
Fica bem assim. Passemos ao teu estilo. Como é que o descreverias e que peças são as mais importantes no teu outfit?
Difícil. Gosto de roupa. Desde sempre. Já em adolescente usava sempre coisas com que nem toda a gente conseguia lidar. Queria ser diferente. Pelo menos pensava nisso. Hoje diria que o mais importante para mim é o conforto. Tenho de me sentir bem. Gosto de coisas clássicas e intemporais. Raramente sigo tendências.
Como berlinense de nascença, estás claro há anos mimado com boas lojas de sneakers. Que relação tens com a Solebox, a Overkill, a Firmament e companhia?
Trabalhei mesmo em frente à Solebox e por assim dizer vi como o Hikmet e os irmãos cresceram e literalmente puseram em marcha um grande movimento. Foi mesmo bonito de ver. Mas tenho de ser honesto, nunca consegui e continuo a não conseguir perceber bem este hype por um bocado de plástico. Quando há miúdos a andar por aí com o valor de uma renda mensal de uma família numerosa nos pés, então acho que há alguma coisa muito errada no nosso planeta. Mas não aponto o dedo a ninguém, também estou aqui a falar para mim próprio. Tenho tantos sapatos e tanta roupa em casa e apanho-me a mim mesmo a queixar-me de que não tenho nada para vestir.

"As Air Jordan 1 continuam a ser os clássicos!"
Quais são as top-5 sneakers para o Okan Frei?
Antigamente gostava muito de Air Jordan. Joguei basquetebol durante anos. Adorava as 12. Mas com esse sapato também me lesionei duas vezes com gravidade, por isso tenho de alguma forma uma pequena relação de amor-ódio com ele. (ri-se) As adidas Samba também sempre achei fantásticas, porque me lembram os meus anos de futebol. No pavilhão dávamos cabo daquelas coisas. Hoje gosto das Air Max 180. Também as Air Jordan 1 continuam a ser clássicos. Mas acho que aquela que me assenta bem neste momento é a One Star Chuck. De resto, na verdade nunca conseguiria decidir-me só por cinco sapatos, o meu gosto muda constantemente.
Nos últimos anos andaste muito em tour e em breve vais outra vez para a estrada. Que sneakers vais de certeza meter na mala?
Em palco gosto muito de usar Chucks. Acho que essas continuam a ser um clássico para sempre. Quando mais tarde vejo fotografias dos concertos, penso para comigo: com essas não fizeste nada de errado. O sapato serve sempre. Para a viagem levo na maioria das vezes sapatos muito confortáveis. Adoro as New Balance 998, mas também as Air Max 95 ou então as minhas 180. Vai ter de ser uma mala um bocadinho maior. (sorri)
Okan Frei online:
www.instagram.com/okanfrei
www.youtube.com/user/okanfreimusik
photos: Delia Baum / Florence Bakic