“Um verdadeiro sneakerhead não se interessa pelo hype” - Entrevista com Tim Sabajo, Patta

Tem sido, até agora, um bom ano para a instituição neerlandesa das sapatilhas Patta. Diversas coleções próprias, bem como cooperações com, entre outras, a Nike (Air Span II) e a ALCH, mantiveram a marca ocupada; diversos lançamentos de sapatilhas em grande escala mantiveram a loja ocupada.
Mas na entrevista com o fundador da Patta, Tim Sabajo, num soalheiro dia de maio nas ruas da capital neerlandesa, percebeu-se: nem tudo o que reluz é ouro. Uma conversa sobre a evolução da cena das sapatilhas, sobre cenários de lançamento absurdos nas ruas em frente às lojas Patta em Amesterdão e Londres e sobre a constatação de que, nos dias que correm, o sneakergame quase se assemelha a uma guerra.

"Em 2019 a Patta vai explodir!"
Tim, como é que tem sido o ano para a Patta até agora?
Foram bons meses. Tivemos muito que fazer. Acabou de sair a nossa nova coleção e aí há naturalmente muito a fazer. Além disso houve muitos lançamentos loucos, como os Off-White ou o Sean Wotherspoon. Esses também nos põem bem em sentido. (sorri)
Vamos falar sobre a vossa nova coleção Patta. Que ideia, que motivo seguiram desta vez?
Na verdade mantivemos aquilo que fizemos em todas as nossas coleções anteriores: têm de ter algo de nós. Todas as coleções têm o ADN da Patta. Trata-se das coisas que vemos, das coisas que nos ocupam. Tudo isso entra depois na coleção. Não se trata de dizer que esta coleção é agora especialmente desportiva ou que aborda um tema especial ou tem uma declaração especial. Trata-se única e exclusivamente das coisas de que gostamos e que achamos dope.
Na verdade isso até torna a coisa um pouco mais fácil, não?
Sim, sem dúvida. As coleções nascem de forma mais orgânica, percebes? Quando se tenta forçar demasiado a ideia, normalmente corre mal.
O que é que ainda têm planeado para 2018?
Ainda não quero revelar muito. (sorri) Mas este ano vai ser um pouco mais calmo. Vão sair ainda três colaborações. Mas no próximo ano festejamos 15 anos e aí vai explodir! Dope things will come! (sorri)
"Everything is 10 minutes biking away"
Então estamos curiosos... Que importância tem uma cidade como Amesterdão na busca de ideias?
Amesterdão é a cidade de onde eu e o meu irmão somos. Amesterdão é a cidade onde tudo começou com a Patta. Por isso a cidade tem naturalmente influência. Amesterdão é pequena, na verdade quase uma aldeia. Toda a gente se conhece, toda a gente se adora. E como Amesterdão sempre foi uma cidade de importação e exportação, as mais diversas influências das mais diversas subculturas chegaram cedo a este melting pot, que ainda hoje representa a convivência multicultural e a coexistência de diferentes subculturas num espaço mínimo. Se quiseres música punk, andas dez minutos de bicicleta para um canto da cidade e, se quiseres HipHop, andas dez minutos para o outro. Tudo fica apenas a dez minutos de bicicleta. Isso é Amesterdão. (sorri) Portanto, se estiveres aberto a isso, tens em Amesterdão uma cidade pequena e entusiasmante.
Já falaste nisso há pouco: não foram só os vossos próprios lançamentos que vos ocuparam, houve também coisas como os lançamentos dos Jordan 1 Off-White, que decorreram na vossa loja e onde se passou bastante. Imagino que tenha sido mais louco do que noutros lançamentos. Digo-te assim: quantas mais pessoas estão envolvidas, mais stressante fica. Fazemos os nossos lançamentos desde sempre da mesma maneira e por isso as pessoas sabem que, se quiserem fazer confusão, não vão longe connosco. Mas na nossa loja em Londres foi simplesmente a loucura pura que se instalou.

"Tínhamos meninas pequenas à porta da loja a tentar convencer-nos de que lhes servia um US 11"
A diferença entre Amesterdão e Londres foi assim tão grande?
Não fazes ideia. Foi tão pesado que decidimos que este ano, em Londres, não vamos para já voltar a fazer lançamentos da dimensão dos Off-White ou dos KAWS. É simplesmente guerra. Digo-te como é. Quer se trate de resell ou não - as pessoas estão loucas! Fazemos isto há anos. Estabelecemos regras. Dizemos como as coisas têm de correr, verificamos os tamanhos dos compradores e nunca tivemos grandes problemas. Mas em Londres foi simplesmente uma loucura. Nunca tínhamos tido tantas discussões com pessoas como naquele momento. Meninas pequenas a tentar convencer-nos de que lhes servia um US 11; tipos que ficaram mesmo agressivos porque já não conseguiram comprar o sapato... Nem sequer pude pôr seguranças normais à porta da loja - tive de contratar ex-soldados. A sério! As pessoas perderam mesmo a cabeça. Isto já não tem piada nenhuma. When money is involved, kindness is out the window.
"Se amas um sapato, o que te interessa é o sapato"
O que achas da ideia anti-resell da Sneakersnstuff, que no lançamento do Sean Wotherspoon em Estocolmo disse que só se podia comprar o próprio tamanho, que a caixa ficava na loja e que se tinha de sair da loja com o sapato no pé?
É uma ideia sobre a qual também já pensámos. É uma boa ideia, sem dúvida. E eu gostaria que todas as lojas fizessem assim. Mas mesmo assim há sempre pessoas, colecionadores, que querem ter o sapato obrigatoriamente com caixa e aí começa outra vez a discussão. No fim, porém, é assim: as únicas pessoas que se irritam com isso são os resellers! Se amas um sapato, o que te interessa é o sapato. Nesse caso tanto te faz teres de o calçar logo.
Achas que a situação vai acalmar num futuro próximo?
Não. Porque está muito dinheiro em jogo. Olha só para o 1/97 Wotherspoon: havia tantos pares! E mesmo assim as pessoas passaram-se, porque a procura era tão enorme que continuava a haver pessoas a querer fazer dinheiro com isso. Este sneakergame é entretanto tão gigantesco que nunca será suficiente. Mas também não estou nada zangado com os resellers. É um mercado. Existe, e existe porque há pessoas que precisam dele e o querem ter. E eu respeito toda a gente que faz o seu hustle. Adoro o hustle! Não percebo é como é que miúdos de 14 anos conseguem usar roupa no valor de vários milhares de euros e estar na fila à porta da nossa loja a cada novo lançamento, mas é assim mesmo. (ri-se)

"A caça transformou-se numa luta"
Como é que lidas pessoalmente com o facto de o sneakergame ter mudado tanto?
Sinceramente? Continuo simplesmente a fazer as minhas coisas. Compro aquilo de que gosto. E se toda a gente salta para o comboio do hype e não vê que há lançamentos inline fantásticos e que se devia continuar a comprar aquilo de que se gosta, por mim tudo bem. Que aborrecido é quando toda a gente usa a mesma coisa? Muitos esquecem-se disso com todo o hype à volta destas ou daquelas sapatilhas. As pessoas já só perseguem o sapato que lhes é ditado pela marca. A caça transformou-se, portanto, numa luta. Mas não é disso que se trata. Eu sou oldschool. Comecei a interessar-me por sapatilhas quando ainda não havia Quickstrike nem Tier Zero. Ia-se simplesmente à loja, via-se uma cena fixe e comprava-se. E ainda hoje vou à Foot Locker ou à Size? Não vou aonde estão os hypebeasts. Procuro aquilo de que gosto. E se fores um verdadeiro sneakerhead, não te interessa o que o hype diz. É assim: às vezes ganhas, às vezes perdes. É essa a essência do sneaker-hunting. É essa a piada deste jogo.
Neste jogo a qualidade também tem um papel?
Espero bem que sim! Para mim é um dos fatores mais importantes. I built things to last! E felizmente muitos fazem o mesmo. E mesmo assim há clientes que compram umas sapatilhas em resell por 1.000 EUR e depois vão à H&M ou à Primark e compram uma t-shirt por 8 EUR, que se pode deitar fora depois de a usar uma vez. Porque é assim que essas empresas produzem: comprar barato, usar uma vez, voltar logo e comprar de novo, e depois outra vez do início. E isso destrói o negócio, é perigoso e simplesmente estúpido! Mas todos nós, os que lançam coleções e sapatilhas e os que estão na loja e compram as coisas, podemos mudar isso. Está nas nossas mãos. E devíamos usar esse poder. Ainda te lembras do lançamento da Noah de há uns tempos?
Queres dizer aquele em que a marca explica porque é que a camisola custa aquilo que custa?
Exatamente! Para mim foi uma das melhores coisas em muito tempo! Explicaram direta e objetivamente porque é que as roupas custam o que custam e chegaram mesmo a imprimir isso nas suas etiquetas e a mandar cosê-lo nas roupas. Explicaram que se trata de qualidade. Que não se trata de produção em massa mal feita. Foi uma jogada fixe. Essa celebrei.
[embed]https://youtu.be/LQkGbuzu_SM?t=6m59s[/embed]
photos: Marie Schöniger